Antes de tudo isso acontecer, da vida ter mais cores e dos números passarem pra lá de mil milhões, quando os animais estavam todos catálogados no livro da primária e todas as árvores tinham os troncos marrons e as folhas verdes, na época em que pai e mãe sabiam tudo e no nosso país, até então, só havia exitido um presidente, naquela época o momento mais mágico para mim era uma tarde de chuva.
Não falo de qualquer tarde de chuva, não serve garoa fina, daquela que só deixa a pele grudenta e muda levemente a cor do sapato. Me refiro àquela tarde de chuva que vem depois do temporal, com gotas firmes que caem na terra constantemente e o melhor que se tem a fazer nesse momento é deitar na cama e olhar para a janela esperando que seja eterno.
A janela com o vidro fechado, o quarto sem luz, o som da televisão do vizinho no fundo, onde não se consegue distinguir se era o noticiario ou o mesmo filme que passava no canal aberto com uma periodicidade irritante, não se sabia o que e nem de onde vinha, só se sabia que era uma televisão.
Naquele momento não existia dever de casa, nem tarefa doméstica, não se tinha medo de pegar ônibus sozinha depois que escurecesse, nem do jornal que falava mais uma vez do desaparecimento de alguém. No meu momento mágico não existia passado e nem futuro, erros ou planos, apenas a chuva que caía com raiva na terra, persistentemente.
Hoje eu olho para a mesma janela e já não tenho paciência, nem tempo, para esperar a chuva cair, já não reconheço o sentimento que motiva suas insistência na mesma terra, o passado dança nos meus pensamentos, impedindo o barulho da chuva de se comunicar comigo, o medo do futuro faz com que me tape com o cobertor, impedindo de ver a janela, e a televisão que está ligada hoje, é a minha.
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