Você já está velho. De espírito.
Diz por aí que já viveu tudo e não vai mais mover uma palha. Para se arrepender.
Insiste que não dá mais murro em ponta de faca. E insiste.
Reclama do que passou a ser. E não foi.
A realidade que criou na sua cabeça é mais cinza do que a tinta da tua caneta. Que é preta.
E mente sobre seus problemas, como pesam, o que rezam. Que não existem.
Se arrepende insistentemente das decisões sem critério. Que ainda vêm pela frente.
Fica cego com a luz e não vê nada no escuro. Fechou os olhos.
Não tem mais memória, se foram os amigos, e os anéis com os dedos. Menos os medos.
Diz que não tem vícios e se entope de remédios. Para afastar o tédio.
Não erra, não se arrepende, não se engana. Não tenta.
A raiva que alimenta não te sustenta. E nem te aguenta.
Acredita que os esforços são válidos, são raros, são viáveis. Rotina.
E me conta que a vida é assim, um avião com turbulência, uma pausa para a existência.
Eu, finjo que acredito. Vejo o tempo passar. Deixo o tempo passar.
E conto, conto, conto.
Conto os dias na cartelinha de pílulas.
Terça. Quarta. Feira.
E a cada dia engulo uma pílula.
E a cada pílula engulo um dia.
A seco!
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